segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Cheiro de leite azedo na emissora dos Saad


Independência jornalística e conflito de interesses. Será que faz algum sentido os grandes veículos de comunicação desfraldarem sem embaraço algum as bandeiras da Ética e da Liberdade de Imprensa? É coerente falar de independência editorial em veículos que fazem boa parte dos seus lucros a partir da venda de anúncios publicitários?

Duas dessas questões buccianas me vieram à cabeça após assistir despretensiosamente ao Jornal da Noite, da Band, no último dia 13. O que me chamou atenção foi uma
matéria, com tom de editorial, sobre a oligopolista Nestlé - com direito a longo comentário de Joelmir Beting, comparando a empresa do ramo alimentício a um negócio de fundo de quintal. Cheirou a retaliação.

Estou longe de dizer que a multinacional (desculpem os puristas, mas o termo transnacional nunca me pegou) é inocente. Como toda grande corporação, a dona do Leite Moça, invariavelmente, deve ser protagonista de histórias que poderiam azedar qualquer reputação. A matéria exibida na Band não é mentirosa. Mas me pareceu mais conveniente à emissora dos Saad do que ao telespectador.

Tentei entrar em contato com uma antiga assessora da Nestlé, mas não tive sucesso. Queria saber se a empresa mantinha algum espaço publicitário no Grupo Bandeirantes ou se tinha comprado cota de patrocínio do Band Folia 2008. Como costumo passar ao largo da TV aberta, não sei se a Nestlé faz inserções comerciais na Band. A última coisa que me lembro é a perda de patrocínio do antigo programa da Claudete Troiano, após a prisão da filha da apresentadora, acusada de traficar drogas (
o que alguns veículos chamaram eufemisticamente de "vender drogas").

Após fazer uma busca no site da emissora, notei que a Band exibiu outra matéria sobre enriquecimento da multinacional via
monopólio do chocolate. O que foi classificado como lucro "às custas de um negócio considerado ilegal pelo Ministério Público". Nada de errado. A matéria está corretíssima. Estranho mesmo é que quando a Nestlé comprou a Garoto, não houve uma única "matéria combativa" contra o futuro monopólio dos ovos de chocolate, apenas um mais do mesmo asséptico e "objetivo". O que pensar? Será que o estilo Chateaubriand de se fazer notícias ainda não foi exorcizado?
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