quarta-feira, 30 de abril de 2008

Terror mediático

Meus caros, as eleições americanas se aproximam e com isso, a mídia toma posicionamentos. Disponibilizo no Lobotomia um artigo do jornalista Argemiro Ferreira que esmiúça o terror mediático contra o pré-candidato democrata Barack Obama.

Obama na mira do jornalismo "gotcha"

Foi um exemplo eloqüente do jejum que o presidente Lula devia ter imposto aos veículos das organizações Globo - todos eles - no período que antecedeu a eleição presidencial brasileira de 2006. O império Fox de mídia, propriedade do magnata do jornalismo desonesto, Rupert Murdoch, teve de esperar 772 dias, mais de dois anos, para fazer uma entrevista exclusiva com o candidato Barack Obama.

Numa espécie de chantagem, o anfitrião Chris Wallace, do "Fox news sunday", o principal programa político da rede, passara a atualizar aos domingos a contagem de dias, horas e minutos da ausência de Obama. Além disso, a Fox só patrocinou um dos 21 debates entre candidatos democratas. O comportamento tendencioso de sua gente empurrou os candidatos para debates em outras redes, como sua rival CNN.

O fim da ausência de Obama na Fox deu-se no último domingo mas o candidato não foi a Nova York ou Washington: esperou Wallace e sua equipe em Indiana - onde está em campanha para as primárias da próxima terça-feira. Wallace já foi dos quadros da NBC e da ABC, é competente. Mas na Fox adota o estilo da casa, cujos ideólogos são os extremistas neocons Bill Kristol e Charles Krauthammer.


Ainda a culpa por associação

Mesmo assim, Obama manteve a serenidade e a elegância. Respondeu a todas as perguntas, inclusive provocações sobre o ex-pastor de sua igreja Jeremiah Wright, exposto ao país como antiamericano, e o vizinho (militante na década de 1960 no grupo radical Weather Underground) Bill Ayers, apontado pela mídia à execração pública como criminoso e terrorista.

Wright e Ayers viraram alvos permanentes para ataques a Obama. Ele não se queixou. Qualificou de legítimas as perguntas, mesmo considerando injusto os dois serem arrastados às primeiras páginas e horário nobre da TV apenas pela obsessão de atingir o candidato. Lembrou suas boas relações com amigos conservadores dos quais diverge, como diverge com freqüência de Wright e Ayers.

"Tenha na cabeça que os sermões do pastor não eram sempre políticos. O que mais falava era sobre a igreja, a família, a fé e as escrituras. E era em busca disso que eu ia à igreja", observou. Lembrou ainda que Martin Luther King é sempre citado pelo sermão "I have a dream", mas em outro, feito na igreja de Riverdale, Nova York, foi radical contra a guerra do Vietnã, de uma forma perturbadora.


Até estupro contra Clinton

Quando a Fox entrevista um político que não reza pela cartilha de Murdoch, costuma enfiar cada um de seus veículos numa camisa de força. Prevalece então o chamado estilo "gotcha" de jornalismo. É também nisso que aposta a nossa mídia ("O Globo", "Veja", "Folha de S. Paulo", Estadão, etc.). É o que ela faz desde o início, há três anos, da campanha do impeachment do presidente Lula.

Considera Lula idiota e apedeuta, certa de que acabará escorregando numa casca de banana fatal. Gostou tanto do dossiê de 2006 (mas as fotos do dinheiro nas primeiras páginas, capas e horário nobre só prolongaram a agonia do picolé de chuchu) que há pouco inventou outro dossiê, atribuído a Dilma Rousseff. Chamados de pais do "gotcha", Bob Woodward e Carl Bernstein negam a paternidade.

Na mídia americana o "gotcha" fracassou também em 1998, quando ela apostou na derrubada de Bill Clinton. De nada valeram as gravações de Linda Tripp, a mancha no vestido de Monica Lewinsky e até um estupro. A NBC, pressionada pela Fox, teve de bancar este último, usando suposta reportagem de investigação de Lisa Meyers (na verdade, não passava de uma entrevista duvidosa).


A nostalgia de Carl Bernstein

Em palestra na Universidade de Maryland, Bernstein exorcizou o "gotcha" em 2002 como abominável, subproduto de Watergate. Ele e Woodward negaram ter qualquer responsabilidade por tal desvio. "O que fazíamos era aquele tipo básico de reportagem, tradicional, sem glamour. Boa reportagem é quando conseguimos a melhor versão possível da verdade. Mas não é mais assim que a mídia funciona".

Na campanha eleitoral americana, Obama já enfrentou vários "gotcha". Imagens do pastor Wright ficaram em cartaz dias e semanas, mas a Fox protestou quando os demais veículos da mídia decidiram mudar de assunto. Hillary, depois de ressuscitar Wright na Pensilvânia, lançou Bill Ayers. E não adianta Obama explicar que tinha apenas sete anos de idade quando este era radical e explodia bombas.

Chris Wallace e outros sabem disso. Como os jornalistas de nossa mídia, eles não estão a fim de perder o emprego Wallace seguramente esperava um "gotcha" domingo. Mas Obama deu-se bem até quando o entrevistador fez certo esforço para colocá-lo em rota de colisão com o general David Petraeus, o herói que a Fox está vendendo ao país. Resistiu até o fim. Não disse em nenhum momento que vai demiti-lo.




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