terça-feira, 3 de março de 2009

Sobre a crise e as utopias

"Os Embaixadores", de Hans Holbein

Estive lendo hoje um artigo publicado pelo teólogo Leonardo Boff na ADITAL sobre a crise internacional citando inclusive dois filósofos, Immanuel Kant e Martin Buber. Para Boff, é altamente necessário haver boa vontade, como definida por Kant, segundo o autor, por parte dos políticos, grupos sociais e afins para resolver o problema, sem pensar unicamente em seus próprios interesses e, citando Buber, dizia que só é possível um “nós” quando o “eu” e o “tu” interagem e existe um diálogo aberto entre eles, possibilitando também uma abertura para o outro. Resumindo bastante seu artigo, Leonardo Boff reforça que só será possível uma verdadeira superação da crise, sem que ela gere ressentimentos e guerras como às resultadas pela crise de 29, quando os países resolverem trabalhar juntos, numa “solução includente” como ele mesmo define, onde através da busca de um consenso razoável os países trabalhem em uníssono.

Enfim, corro o risco de não estar fazendo jus ao texto de Boff, mas é basicamente isso o que ele diz. Embora seja apenas o segundo artigo que leio dele, e o segundo também sobre a crise, confesso que acho muito bonito e sem dúvida bastante correta a maneira como ele enxerga o problema. Mas acho suas soluções um tanto quanto utópicas.

Não quero soar presunçoso, afinal não tenho tanta bagagem para discorrer sobre a crise como o próprio autor ou mesmo alguns outros blogueiros que conheço, tal qual André Lobão e meu amigo Marcelo de Souza, do blog Impostura, cujo link se encontra ao lado. Tenho lido com frequência sobre como o pensamento de Marx tem se mostrado altamente preciso e pertinente atualmente e sobre como o capitalismo falhou e devemos recomeçar com um novo sistema, mais correto e justo, mas tem outra questão, mais pessimista e, porque não, niilista que me assombra: não seria a crise a ocasião ideal para alguns países tentarem derrubar seus inimigos e fazer surgir, então, uma nova e poderosa nação, que possa fazer frente à América, por exemplo?

Não podemos negar o valor do discurso de Boff. Aliás, pela minha criação católica, confesso que acho fabulosa essa idéia ecumênica contida no artigo. Mas sejamos sensatos, a barbárie e a miséria nunca ficaram ausentes em momento algum da história humana. A idéia de nações reunidas dialogarem civilizadamente para evitar que cabeças sejam cortadas ou cidades queimadas não deixa de soar para mim um tanto quanto ingênua. Uma ingenuidade bonita, como de quando se é menino e tenta se imaginar numa terra onde podemos voar feito pássaros, mas tão ilusória quanto. Nós somos humanos, filhos do carbono e do amoníaco, monstros de escuridão e rutilância capazes de coisas literalmente vis, no sentido mesquinho e infame da vileza. Nenhum de nós parece ter nascido de verdade para ser rei e trazer um bem sem que para isso não se queimassem falsas bruxas e supostos traidores. O mundo é lar para os carrascos e a única outra maneira que a história mostrou ser possível uma concordância sem tanta miséria é quando o menor se inclina e permite a “entrada” do mais forte.

Acho que as utopias e os bons ideais devem sempre pautar os nosso caminhos. Mas acho que isso só funciona no particular. Não se governa uma nação sem derramar sangue e lágrimas de alguém. Honestamente, acho que só o fim nos salvará. Espero estar errado.

5 comentários:

André Lobão disse...

Caro Luiz,

Boff como todos sabem, tem origem do círculo religioso católico. É um dos ideólogos da Teologia da Libertação, um movimento que pretendia conscientizar os mais pobres contra à exploração e exclusão social. Para isso, o evangelho seria a principal ferramenta de mobilização. Segundo Boff, Jesus não é apenas o libertador de almas. Ele liberta o homem da exlusão e da pobreza. Libertação se faz com a prática social - mobilização comunitária.

Armando Maynard disse...

A idéia de uma nova Igreja, defendida por Leonardo Boff, tem muito mais legitimidade, pois olha menos para o céu e mais para a terra, vivenciando o real, no sentido de conscientizar e mobilizar o seu povo. E não como insiste a velha Igreja, proibindo o uso da camisinha, e condenando o aborto de uma jovem de nove anos, que foi estuprada pelo padrasto em Recife. Um abraço, Armando. [recomentarios.blogspot.com]

Luiz Alexandre disse...

Sim, amigos,é por isso mesmo que gosto do Boff, ele propõe uma reforma na igreja católica que, como vocês mesmo disseram, está muito mais atento aos pecadores, tal qual Jesus Cristo, uma teologia certamente que muito mais acolhedora e sã. O que ponho em cheque não é o valor de seu conteúdo, certamente que as questões apontadas por ele sem seu artigo são corretíssimas. Entretanto, confesso que, por mais belo e virtuoso que seja, a realidade provavelmente jamais chegará a se assemelhar a 1/500 de sua proposta.
Estou mais crente na bomba atômica que vai explodir o planeta dos macacos do que na fé e boa venturança dos políticos. Acham que me equivoco?

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Luiz, antes de tudo, obrigado pelas palavras gentis. Eu não acredito no ser humano como portador disso que chamam de "diálogo". A ideia do diálogo pressuporia que há uma troca efetiva entre duas ou mais pessoas. 'A troca é impossível', como bem lembra o Baudrillard, em um de seus mais brilhantes trabalhos. Acho que podemos fazer ressoar alguma coisa como um sentimento de indiferença simbólica ao gozo do carrasco.. mas apenas isso.

No mais, acho o pensamento do Boff problemático, por dois motivos: primeiro, porque a ideia da teologia da "libertação" é cristã. Tem carrasco no meio, portanto. E segundo, porque segue a lógica de 'terceiro setor' das Ongs, que só sustentam a balela capitalista. Continuo preferindo a arte como contradito.

Grande abraço, meu amigo.

Cafezinho disse...

Ongs são questionáveis? Claro. A Igreja católica mais ainda? Claro também. No entanto, sabe-se da luta do teólogo Leonardo Boff por uma Igreja mais aberta e humanitária. Gosto muito de seus posicionamentos sócio-politicos. Na minha opinião esta é uma das figuras que quando fala vale a pena parar para ouvir.
Abraços

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